
Minha própria jornada com a literatura, não nasceu de uma busca intelectual ou do propósito utilitarista de passar em um vestibular. Nasceu do tédio puro. Nascido em 1995 em uma família extremamente religiosa, por volta de 2008, durante as férias escolares, eu passava horas assistindo escondido a Dragon Ball, Naruto, Yu-Gi-Oh!, Pernalonga, Patolino ou Pica-Pau. Aquelas animações eram meu refúgio, mas, infelizmente, minha mãe tornava-se cada vez mais rígida e fanática, ordenando que a TV fosse desligada para "economizar energia" e classificando tudo aquilo como "obras do inimigo". Meus raros momentos de respiro vinham de um pai trabalhador e bondoso que me permitia ver os desenhos, mas a pressão doméstica só aumentava.
Cansado de disputar esse cabo de guerra e sufocado pelo tédio, decidi explorar os guardados do meu pai: pilhas de jornais e revistas dos anos 1980 — incluindo edições guardadas a sete chaves —, trancafiadas em um cômodo intocável onde o mofo e as traças imperavam. Naquela época, internet rápida e celulares com tela colorida eram luxos distantes. Para escapar da monotonia, arrisquei-me entre caixas de ferramentas, HQs e livros ainda no plástico.
Foi lá que uma coleção específica capturou minha atenção: Os Pensadores, trazendo volumes como Nietzsche: Obras Incompletas. Na minha mente pré-adolescente, ele era apenas um velho bigodudo, estranho e engajado; eu sinceramente achava que se tratava de um livro de piadas. Ao abrir a edição com textos selecionados por Gérard Lebrun, eu simplesmente não entendia nada.
Mas encontrei também outro tesouro: um livro traduzido por Boris Schnaiderman — pioneiro na tradução direta do russo, do alemão e do inglês de autores de ficção científica no Brasil —, uma preciosidade que hoje em dia já não se encontra à venda em lugar nenhum.
O fascínio pelo gênero surgiu cedo, aos 12 anos. Minhas primeiras lembranças são impregnadas de livros que pareciam portais para mundos inimagináveis: Fundação, de Isaac Asimov; Nova Atlântida, de Francis Bacon; Voyages et Aventures de Jacques Massé, de Simon Tyssot de Patot; e Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke. Cada um deles carregava consigo um universo próprio, à espera de ser descoberto. Meu contato com essas obras foi tão inesperado quanto transformador, muitas vezes chegando às minhas mãos por meio de recortes de revistas ou exemplares destinados a trabalhos escolares.
Na minha infância e juventude, frequentava sebos na Avenida 12 de Outubro, na Lapa, em busca de livros descartados. Além disso, muitos acadêmicos da Cásper Líbero, da USP, do Mackenzie e da PUC deixavam obras espetaculares nos metrôs de São Paulo, à espera de qualquer curioso que quisesse levá-las. Algumas estavam em francês, outras em alemão ou inglês; muitas, com páginas faltantes, como se cada rasgo carregasse um mistério a mais. Entre esses achados, destaco Kurd Laßwitz (1848-1910), frequentemente lembrado por Auf zwei Planeten (Em Dois Planetas, 1897), que descreve uma civilização marciana avançada na Terra; e E.T.A. Hoffmann (1776-1822), cujas histórias como O Homem de Areia (1816) flertam com a criação artificial e os autômatos.
Movido pela curiosidade e pelo desejo de compreender essas histórias — algumas em idiomas estrangeiros —, recorri ao Tradutor do Google em uma lan house próxima de casa. Cada palavra decifrada, cada frase traduzida, despertava em mim um entusiasmo crescente. Foi ali, entre livros esquecidos e idiomas estranhos, que me apaixonei de verdade pela ficção científica, não apenas pelas histórias, mas pela sensação de que, através da imaginação, qualquer coisa era possível. A experiência me ensinou algo que permanece até hoje: o conhecimento e a inspiração podem surgir nos lugares mais improváveis.
"De onde essas mentes tiraram suas ideias?" — mergulhado em indagações sobre esses pensadores e suas obras, este antigo estudante da Escola Estadual Professor Rogério Levorin começou a se dedicar à produção de sua própria obra: Hiparco: A Construção de Novos Mundos.
O projeto consistia em relacionar eventos reais e científicos à literatura, aplicando ideias baseadas em cosmologia, física e matemática. A genética humana — impulsionada pela novela O Clone, transmitida no Vale a Pena Ver de Novo — despertou minha curiosidade, levando-me a descobrir pesquisas sobre o Projeto Genoma Humano e cientistas como Mary-Claire King, James Watson e Svante Pääbo, a quem cito no romance. Também me aprofundei na engenharia aeroespacial ao assistir a Star Trek no Canal 21, em cujo episódio uma raça de alienígenas cria seu próprio planeta artificial. Descobri que isso podia ser teoricamente viável ao ler um artigo publicado em 1.º de janeiro de 2005 por Mark Hempsell, no periódico Journal of the British Interplanetary Society, intitulado "Terraformação no Contexto da Infraestrutura Espacial".
Enfrentei de tudo nesse processo: reprovações escolares (cheguei a reprovar a oitava série do ensino fundamental), além de críticas e perseguições de professores e familiares por rasgar folhas de caderno e tirar notas baixas. Meu foco na época era corrigir trocas constantes de nomes de personagens e cidades no meio da trama, lidar com esboços amassados e superar bloqueios criativos severos. A dúvida insistia: publicar ou não publicar? Será que nasci para escrever? Será que preciso cursar Letras?
Por muito tempo, cogitei apagar os arquivos no Word, acreditando que a literatura era "para poucos" e que apenas autores consolidados ou com ensino superior poderiam ter sua arte publicada.
Na fase adulta, uma história curiosa marcou o resgate desse material: ao consertar um notebook Samsung Core i3, decidi reaproveitar o disco rígido (HD) de outro computador antigo que havia queimado. Ao abrir os arquivos, deparei-me justamente com a pasta do livro em que estive em hiperfoco desde a infância. Eu havia me esquecido completamente de que tinha escrito esse material — cheguei a pensar que pudesse ter baixado da internet ou que fosse um antigo trabalho escolar —, até me lembrar da época em que atuava como vendedor autônomo em uma loja de calçados na Rua 12 de Outubro, na Lapa, onde costumava garimpar livros nos sebos da região.
Entre incontáveis correções gramaticais, folhas rasgadas, cadernos destruídos ao longo dos anos letivos e tantas tentativas de desistir, este livro, enfim, encontrou sua forma. Até que minha esposa decidiu ler o material, insistiu e me deu o empurrão necessário para apostar na obra. E assim nasceu Hiparco: A Construção de Novos Mundos — provando que a paixão por criar nasce, muitas vezes, de pequenos achados e da vontade obstinada de transformar a curiosidade em descoberta.

Em um futuro onde a ciência e a ambição moldam mundos, Simon lidera a construção de Hiparco, um planeta artificial que dasafiam os limites da engenharia. Ao lado dele, Nancy mergulha em experimentos genéticos que transformam a vida como conhecemos, enquanto Zoegh, Nicholas e Samir Abdala cruzam caminhos e ideais em meio a descobertas e desafios inimagináveis. Entre invenções, ética e poder, um no
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Em um universo no qual o genoma pode ser reescrito, a longevidade se tornou uma conquista e a criação de novas espécies deixou de ser impossível, a perfeição biológica passa a definir quem merece viver. Crianças são julgadas por suas características genéticas. Religiões transformam interpretações em leis. Governantes convertem descobertas científicas em armas. E o sonho de superar os limites da n
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