
Houve um tempo, no início desta jornada, em que o silêncio da sala de ensaio parecia carregar um peso invisível. Estávamos ali, um grupo de buscadores, munidos apenas da coragem de olhar para o que a maioria prefere ignorar. O desafio era hercúleo: não apenas criar um texto, mas permitir que ele nascesse de uma construção colaborativa, onde cada voz era um fio na trama do inconsciente.
O tema era a Sombra. Aquele território oculto que Carl Jung tão bem descreveu — o repositório de nossas fraquezas, mas também a semente de nossa vitalidade. O trabalho foi árduo. Atravessamos caminhos psicológicos sinuosos, onde o cansaço e a dúvida muitas vezes tentaram nos desviar. Mas onde outros veriam um obstáculo, nós encontramos matéria-prima.
A determinação foi a nossa bússola. Compreendemos, através do suor e do estudo, que a disciplina não é uma prisão, mas o andaime que sustenta a liberdade criativa. Cada ensaio era um exercício de psico-sociodrama, uma dramatização espontânea onde as máscaras cotidianas — as personas que usamos para o mundo — começaram a cair. Sob a influência de mestres como Grotowski, não buscamos apenas interpretar; buscamos o "ato total", onde o corpo-memória revela verdades que as palavras sozinhas não conseguem alcançar.
Nossos métodos foram pontes lançadas sobre o abismo entre o eu consciente e o eu desconhecido. Mergulhamos no conceito do "inconsciente a céu aberto", permitindo que as pulsões e os símbolos se manifestassem na cena. Foi um processo de gnose íntima: ao encarar a própria parte obscura, o grupo descobriu que a sombra, quando integrada, deixa de ser um fantasma para se tornar força.
A pretenção do nosso grupo nunca foi a perfeição técnica, mas a autenticidade do encontro. Queremos que esta leitura dramática seja mais do que um encerramento; que seja um convite ao espectador para que ele também se reconheça no espelho do palco.
Hoje, olhamos para trás e vemos o quanto o esforço nos transformou. O empenho nos levou a um novo lugar — um espaço de consciência onde a luz não teme a escuridão, e onde a criação artística se torna, finalmente, um instrumento de cura e integração humana. Saímos dessa experiência não apenas com um texto, mas com uma nova forma de habitar o mundo: inteiros, conscientes e, acima de tudo, despertos.

Este projeto propõe uma jornada de dramaturgia colaborativa centrada no conceito junguiano da Sombra, transformando o palco num espaço de investigação psicológica onde os participantes exploram as facetas renegadas e obscuras da sua própria personalidade para as integrar na consciência. Através de um processo dividido em exploração corporal, criação de personagens baseadas em impulsos reprimidos e
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