
VARRENDO A SAUDADE
Carlos Roberto Hackmann
2ª
Edição — Porto Alegre, 2025
CRÍTICA À OBRA LITERÁRIA
1. Temas centrais e subtemas
O tema central — a saudade como condição constitutiva do
imigrante, que "varre" o passado para construir o futuro — é explorado
com coerência do início ao fim. A metáfora do título é precisa: a vassoura,
produto final fabricado por Aureliano no Brasil, é o objeto que une o trabalho,
a adaptação e o gesto simbólico de "varrer" a dor da partida.
O subtema da vinicultura é tratado com riqueza técnica
impressionante e funciona como fio condutor da identidade familiar. A
progressão do vinhedo artesanal em Borgoricco até o fracasso de se plantar
vinho no Brasil e a reinvenção como industrial de vassouras é uma das linhas
narrativas mais bem construídas.
O subtema da repressão varguista aos imigrantes italianos e
alemães (1942–1945) é um dos mais originais e historicamente densos, raramente
tratado com esse nível de detalhe na ficção brasileira. A cena da invasão da
fábrica é de grande impacto emocional.
2. Personagens e conflitos
Aureliano Migliasini é um protagonista bem delineado: ambicioso,
orgulhoso, com uma timidez que contrasta com sua garra comercial. Sua evolução
ao longo dos 46 anos de narrativa — de jovem vinicultor frustrado a industrial
aposentado que se arrepende de não ter cultivado vinhos no Brasil — é
verossímil e emocionalmente satisfatória. A cena final, em que responde ao
filho sobre o "medo da miséria", é um dos momentos de maior
profundidade da obra.
Antônia, a esposa, é o ponto mais frágil na construção dos
personagens. Nos capítulos italianos aparece como figura secundária, e mesmo na
travessia e no Brasil não ganha a profundidade que seu papel narrativo
exigiria. Sua história familiar na Itália é quase apagada.
Giuseppe, o pai, é um personagem forte — obcecado pela qualidade
do vinho, patriarcal, mas humano — que funciona bem como motor dramático dos
capítulos iniciais. Feliciana e Felipo, companheiros da travessia, têm presença
marcante durante a viagem de navio.
O aparecimento de Elis Regina —
criança tímida de 6 anos na última cena doméstica — como personagem histórico é
um fato real. Romeu de Oliveira Costa, pai de Elis e Emílio Hackmann, pai do
autor, foram colegas na COMPANHIA DE VIDROS SUL BRASILEIRA e depois sócios num
pequeno empreendimento. Trata-se de recurso de encerramento muito bem
executado. É discreto, afetivo e funciona como âncora temporal e cultural da
narrativa no Rio Grande do Sul dos anos 1950.
Os conflitos sustentam a narrativa: a impossibilidade de vender
o vinho na Itália (conflito econômico que gera a emigração), as fraudes das
companhias de navegação (conflito social), as condições degradantes do navio
(conflito humano), a recusa do brasileiro em conceder terras no sul (conflito
político), a xenofobia durante a guerra (conflito identitário). A cadeia é bem
encadeada e cada conflito empurra o protagonista para frente.
3. Coerência narrativa — início, desenvolvimento e
desfecho
A estrutura da obra é sólida. O início (Itália, 1905–1912) é o
mais rico em detalhes e ritmo. O desenvolvimento central (travessia, 1912) é o
segmento mais literariamente maduro, com cenas memoráveis da tarantela no navio,
a tentativa de assassinato e da convivência na terceira classe. O bloco
brasileiro é o mais longo em extensão, mas o mais comprimido em densidade
emocional.
O principal problema de coerência estrutural está na proporção:
os capítulos 1 a 26 (Itália) correspondem a cerca de metade do livro, mas
cobrem apenas 7 anos (1905–1912). Os capítulos 40 a 52 (Brasil, 1912–1951)
cobrem 39 anos com menor profundidade cena a cena. Isso cria uma assimetria que
o leitor sente como aceleração artificial nos capítulos finais.
O epílogo informativo é bem utilizado: resolve o destino dos
personagens com economia e acrescenta dados históricos sobre o legado da
imigração italiana no Brasil, sem se tornar didático em excesso e esclarece que
a conexão entre Gavrilo Princip e Aure figura na obra como recurso literário.
4. Recursos literários
Narrador heterodiegético comentador: o
narrador em terceira pessoa interfere regularmente na narrativa, comentando,
avaliando e dirigindo-se ao leitor. É o recurso mais característico e coerente
do livro, aproximando-o da tradição do romance do século XIX.
Prolepse: o
narrador antecipa informações ("o que Aure não sabe é que..."),
criando tensão dramática com eficiência. Utilizado moderadamente e de forma
sempre funcional.
Descrição técnica como recurso narrativo: os
longos parágrafos sobre enologia, construção naval, técnicas de viticultura e
estrutura dos navios são integrados à diegese sem se tornarem meros apêndices
documentais — funcionam como caracterização do protagonista e de seu universo
cultural.
Intertextualidade discreta: a
citação de Fernando Pessoa na boca de Feliciana, dentro do navio, é um momento
de intertextualidade bem empregado, que caracteriza a personagem e o contexto
cultural europeu da época.
Ironia narrativa: presente
em passagens como a da menina silenciosa que, no futuro, seria a grande Elis
Regina, ou o comentário sobre o leitor no momento do clímax. É utilizada com
bom senso.
5. Verossimilhança e clareza
A verossimilhança histórica é muito alta — um dos maiores
trunfos da obra. A reconstituição das condições de viagem nos navios de
imigrantes (terceira classe, grupos de refeição, divisão por sexo, animais
vivos nos porões, iluminação precária, cheiro, fumaça das chaminés) é
notavelmente precisa e vívida. O mesmo vale para a reconstituição da crise
econômica do Vêneto no início do século XX.
A clareza da linguagem é consistente: o autor explica termos
técnicos de enologia, termos históricos e expressões italianas sem interromper
o fluxo narrativo. Esta é uma habilidade didática significativa.
O único ponto de menor verossimilhança está na relativa rapidez
com que Aureliano e Antônia se adaptam ao Brasil — a língua, o trabalho, o
contexto urbano de Porto Alegre são assimilados sem os traumas que a
historiografia registra para a maioria dos imigrantes. Mas esta é uma escolha
narrativa do autor, que privilegia o arco ascendente da saga familiar.
6. Contexto histórico, social e cultural
A obra inscreve-se em um contexto de crescente valorização das
raízes da imigração italiana no sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do
Sul. Publicada em 2021, com segunda edição em 2025, surge num momento de
revisão historiográfica e de orgulho identitário dos descendentes de italianos,
que inclui o movimento de reafirmação do "talian" como língua
cooficial em municípios da Serra Gaúcha.
Hackmann não é historiador de formação, mas demonstra intimidade
real com as fontes. A narrativa dialoga com a tradição do romance de imigração
brasileira, que tem obras de referência como Incidente em Antares de Erico Verissimo e
a produção literária de Arlindo Battistel — citado ele mesmo no paratexto do
livro.
Do ponto de vista dos movimentos literários, a obra aproxima-se
do romance histórico de tradição do século XIX (Walter Scott, Manzoni, o
próprio Verissimo), sem adesão às técnicas do romance histórico pós-moderno
(que tende à metaficção e à desconstrução). É um romance histórico
convencional, honesto em suas intenções e bem executado dentro desse paradigma.
A biografia do autor influi diretamente na obra: a dedicatória
aos avós ("a quem devo o que há de melhor em mim") sinaliza que a
narrativa é, ao menos parcialmente, uma elaboração fictícia de memória
familiar. Isso confere calor e autenticidade ao texto, mas também explica
certos desequilíbrios — a família é sempre apresentada sob uma luz positiva,
com poucos momentos de profunda tensão interna entre os personagens.
7. Originalidade e contribuição literária
O romance não apresenta inovações formais no sentido estrito.
Sua originalidade está no conteúdo: a combinação de rigor histórico sobre a
região do Vêneto pré-imigratório com a narrativa íntima de uma família de
vinicultores é, na literatura gaúcha, incomum. A maioria das obras sobre
imigração italiana no Brasil foca nos colonos agricultores da Serra Gaúcha;
Hackmann escolhe uma família de produtores vinícolas que se torna industrial
urbano em Porto Alegre, o que distingue sua trajetória ficcional do cânone.
A seção sobre a travessia no navio Mari Verdi — estrutura do
navio, organização social da terceira classe, conflitos de classe entre
passageiros, cotidiano a bordo — é, dentro da literatura gaúcha de imigração,
uma das reconstituições mais detalhadas e literariamente consequentes que se
conhece.
8. Comparação com outras obras
O Tempo e o Vento (Verissimo) Saga familiar gaúcha de maior escala épica e
profundidade psicológica. Padrão canônico do romance histórico brasileiro.
Polenta e Liberdade (Battistel) Foco nos colonos agrícolas; mais etnográfico.
Hackmann complementa com perspectiva empresarial urbana.
La Storia (Elsa Morante) Romance italiano sobre história e subalternidade.
Hackmann tem menos densidade trágica, mas maior riqueza documental técnica.
O Senhor dos Anéis da imigração?
Não — mas Varrendo a Saudade ocupa posição honrosa
na literatura regional sul-brasileira de raízes italianas.
Em termos de qualidade de execução, Varrendo a Saudade está
claramente acima da média da produção independente nacional e rivaliza com
obras publicadas por editoras de médio porte. Sua principal limitação em
relação ao cânone é a construção psicológica dos personagens — que permanece
funcional mas raramente atinge a complexidade interior esperada de um grande
romance.
9. Síntese crítica
Pontos fortes: Pesquisa
histórica exemplar, verossimilhança do contexto, riqueza técnica da
viticultura, reconstituição da travessia de navio, o recurso do
narrador-interlocutor, o tratamento da repressão varguista, a cena final com
Elis Regina.
Pontos a melhorar: Assimetria
temporal entre os blocos Itália e Brasil, relativo apagamento de Antônia como
personagem, desfecho ligeiramente apressado.
Varrendo a Saudade é,
em síntese, uma obra de valor cultural real, de leitura recompensadora para
qualquer interessado na saga da imigração italiana no sul do Brasil. Merece
leitores além do círculo familiar e comunitário a que naturalmente se destina.
Com uma eventual revisão do reequilíbrio estrutural, poderia aspirar a uma
classificação ainda superior.
8,1
★★★★☆
nota final
· romance histórico de valor cultural sólido

O PRESENTE VOLUME, EMBORA HISTÓRIA AUTÔNOMA, TRATA DA DIFÍCIL VIDA DOS PERSONAGENS NA ITÁLIA E COMPÕE A TRILOGIA VARRENDO A SAUDADE, JUNTAMENTE COM OS TÍTULOS “A TRAVESSIA” E “O RECOMEÇO” Trata-se de um romance histórico-ficcional. A trama se desenrola entre os anos de 1.887 e 1.913. É a história de um jovem casal do nordeste italiano, ele vitivinicultor e ela filha de artesão, que se conhecem e s
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O PRESENTE VOLUME, EMBORA HISTÓRIA AUTÔNOMA, TRATA DA PENOSA TRAVESSIA TRANSATLÂNTICA DOS PERSONAGENS E COMPÕE A TRILOGIA VARRENDO A SAUDADE, JUNTAMENTE COM OS TÍTULOS “A EVASÃO” E “O RECOMEÇO”. Trata-se de um romance histórico-ficcional. A trama se desenrola entre os anos de 1.912 e 1.913. É a história de um jovem casal do nordeste italiano, ele vitivinicultor e ela filha de artesão que, convenci
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O PRESENTE VOLUME, EMBORA HISTÓRIA AUTÔNOMA, TRATA DA NOVA VIDA DOS PERSONAGENS NO BRASIL E COMPÕE A TRILOGIA VARRENDO A SAUDADE, JUNTAMENTE COM OS TÍTULOS “A EVASÃO” E “A TRAVESSIA”. Trata-se de um romance histórico-ficcional. A trama se desenrola entre os anos de 1.913 e 1.951. É a história de um jovem casal de italianos, ele vitivinicultor e ela filha de artesão. Decidem emigrar para o Brasil,
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ESTE VOLUME COMPREENDE AS 3 HISTÓRIAS QUE COMPÕE A TRILOGIA VARRENDO A SAUDADE: 1. A EVASÃO; 2 – A TRAVESSIA; 3 – O RECOMEÇO. Trata-se de um romance histórico-ficcional, que se desenrola no início do século XX. É a história de um casal do nordeste italiano, ele vitivinicultor e ela filha de artesão, que sonhava com uma vida melhor, a fugir de uma Itália aniquilada. Convencidos pelo assédio da jove
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